Nesta minha quarta temporada no exterior, talvez por estar mais acostumada (ou menos deslumbrada) com a vida na Europa, tenho estado mais atenta aos rótulos (pré-conceitos) que nos levam a categorizar os povos sem que sequer os conheçamos. Eu mesma já cansei de esclarecer o porquê de eu não ser mulata; como é que eu falo tantas línguas; que Brasília não fica no meio da Amazônia; e outros clichês quetais.
Ao assistir recentemente a um documentário brasileiro (Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado), que trata do turismo sexual no Nordeste sob a ótica das brasileiras que sonham em encontrar um marido rico entre seus "clientes" estrangeiros, e do choque cultural sofrido por aquelas que conseguem realizar esse sonho, não pude deixar de comentar com a Eva (brasileira, doutoranda em biologia aqui na Universidade de Potsdam), que foi comigo, que provavelmente o número de brasileiras na nossa situação é maior que o das ex-(?) prostitutas casadas com alemães, mas que um documentário a respeito de vidas como as nossas certamente faria adormecer até mesmo o mais aficcionado cinéfilo. Portanto, avante com os clichês, que vendem tão bem!
O e-mail que escrevi para um grupo de amigos sobre os mais recentes escândalos da política no DF demonstra bem meu atual estado de espírito sobre esse tema:
A sorte é que por aqui ninguém tá ligando muito pras questões sérias referentes ao Brasil... todo mundo soube que o RJ vai sediar a Copa de 2014, mas ninguém comentou do helicóptero da PM que foi abatido no RJ, do recente apagão ou da ladroagem escancarada da politicalha brasiliense... Fato é que os clichês, verdadeiros ou não, são o que define cada país perante os demais. E simpatia, corrupção, mulatas, violência, futebol e sexo são o nosso cartão de visitas, infelizmente...
Isso tudo para dizer que, depois de esperar 33 dias para ter telefone e internet em casa, acabei sendo vítima dos meus próprios pré-conceitos: eu, que sempre pensei que os alemães fossem a personificação da eficiência em todas as áreas, descobri na prática que, em se tratando de prestação de serviços, por incrível que pareça, os alemães somos nós...
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
domingo, 27 de setembro de 2009
Eleições Parlamentares
Dia de eleições para o parlamento alemão. Desta vez, diferentemente das outras duas eleições que vivenciei por aqui, a campanha estava nas ruas: cartazes pra todo lado, chamadas na TV, convocação nos jornais para o comparecimento popular (o voto é facultativo)...O sistema eleitoral é um pouco confuso pra quem não tem ph.D em física quântica, mas funciona bem para uma democracia que leva os partidos a sério (e em que os partidos se levam a sério...). Em linhas bem gerais, o eleitor vota duas vezes: em um determinado partido (voto em lista) e em um determinado candidato, que não precisa necessariamente ser do mesmo partido em cuja lista se votou. A distribuição dos assentos no Bundestag segue os percentuais alcançados pelos partidos e respectivos candidatos.
Em um país que já sofreu tanto com o nacional-socialismo como com o comunismo, a tensão reinante é sempre para saber se a extrema direita e a extrema esquerda cresceram em representatividade. Ainda não vi nada sobre a extrema direita, mas os esquerdistas conseguiram vitórias expressivas -- para decepção da Birgit, minha "mãe alemã", que, como ex-cidadã da República Democrática (???) Alemã, vivenciou todas as deficiências e o autoritarismo do regime, e se tornou uma capitalista convicta desde que, grávida do filho mais velho (Marian), fugiu para casar e viver com o Dieter em Berlim Ocidental, e passou a ter acesso a coisas elementares como material de construção sem ter que ser membro do partido, comprar no mercado negro a preços exorbitantes, ter cupons de racionamento ou esperar meses na fila.
Mas assim como há coisas que nos distinguem, existem aquelas que nos aproximam: o uso do humor pelos candidatos com menos chance como forma de propaganda, e a falta de consciência eleitoral, só para me restringir a duas. Da primeira categoria vem um dos melhores slogans que eu já vi: "Nós temos mais a oferecer" ("Wir haben mehr zu bieten"). Isoladamente, nada de novo. Mas dentro do contexto certo...
... percebe-se que a comparação pretendida foi menos quanto à plataforma eleitoral, e mais quanto à plataforma, digamos, peitoral... (para quem não acompanhou nos jornais, a foto da atual chanceler alemã, Angela Merkel -- à esquerda --, tirada em uma solenidade na Turquia há alguns meses, causou frisson mundo afora).Quanto à falta de consciência política, basta dizer que o troféu "motivo mais fútil para votar em alguém" vai para a Birgit: na falta de motivo melhor, votou em um candidato que se parece muito com o Marian:

Uma coisa nisso tudo me deixa orgulhosa (pelo menos até se constatar alguma fraude em nossas urnas eletrônicas): por aqui ainda usam cédulas de papel!
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