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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Habemus Internet!

Nesta minha quarta temporada no exterior, talvez por estar mais acostumada (ou menos deslumbrada) com a vida na Europa, tenho estado mais atenta aos rótulos (pré-conceitos) que nos levam a categorizar os povos sem que sequer os conheçamos. Eu mesma já cansei de esclarecer o porquê de eu não ser mulata; como é que eu falo tantas línguas; que Brasília não fica no meio da Amazônia; e outros clichês quetais.

Ao assistir recentemente a um documentário brasileiro (Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado), que trata do turismo sexual no Nordeste sob a ótica das brasileiras que sonham em encontrar um marido rico entre seus "clientes" estrangeiros, e do choque cultural sofrido por aquelas que conseguem realizar esse sonho, não pude deixar de comentar com a Eva (brasileira, doutoranda em biologia aqui na Universidade de Potsdam), que foi comigo, que provavelmente o número de brasileiras na nossa situação é maior que o das ex-(?) prostitutas casadas com alemães, mas que um documentário a respeito de vidas como as nossas certamente faria adormecer até mesmo o mais aficcionado cinéfilo. Portanto, avante com os clichês, que vendem tão bem!

O e-mail que escrevi para um grupo de amigos sobre os mais recentes escândalos da política no DF demonstra bem meu atual estado de espírito sobre esse tema:

A sorte é que por aqui ninguém tá ligando muito pras questões sérias referentes ao Brasil... todo mundo soube que o RJ vai sediar a Copa de 2014, mas ninguém comentou do helicóptero da PM que foi abatido no RJ, do recente apagão ou da ladroagem escancarada da politicalha brasiliense... Fato é que os clichês, verdadeiros ou não, são o que define cada país perante os demais. E simpatia, corrupção, mulatas, violência, futebol e sexo são o nosso cartão de visitas, infelizmente...

Isso tudo para dizer que, depois de esperar 33 dias para ter telefone e internet em casa, acabei sendo vítima dos meus próprios pré-conceitos: eu, que sempre pensei que os alemães fossem a personificação da eficiência em todas as áreas, descobri na prática que, em se tratando de prestação de serviços, por incrível que pareça, os alemães somos nós...

domingo, 27 de setembro de 2009

Eleições Parlamentares

Dia de eleições para o parlamento alemão. Desta vez, diferentemente das outras duas eleições que vivenciei por aqui, a campanha estava nas ruas: cartazes pra todo lado, chamadas na TV, convocação nos jornais para o comparecimento popular (o voto é facultativo)...

O sistema eleitoral é um pouco confuso pra quem não tem ph.D em física quântica, mas funciona bem para uma democracia que leva os partidos a sério (e em que os partidos se levam a sério...). Em linhas bem gerais, o eleitor vota duas vezes: em um determinado partido (voto em lista) e em um determinado candidato, que não precisa necessariamente ser do mesmo partido em cuja lista se votou. A distribuição dos assentos no Bundestag segue os percentuais alcançados pelos partidos e respectivos candidatos.

Em um país que já sofreu tanto com o nacional-socialismo como com o comunismo, a tensão reinante é sempre para saber se a extrema direita e a extrema esquerda cresceram em representatividade. Ainda não vi nada sobre a extrema direita, mas os esquerdistas conseguiram vitórias expressivas -- para decepção da Birgit, minha "mãe alemã", que, como ex-cidadã da República Democrática (???) Alemã, vivenciou todas as deficiências e o autoritarismo do regime, e se tornou uma capitalista convicta desde que, grávida do filho mais velho (Marian), fugiu para casar e viver com o Dieter em Berlim Ocidental, e passou a ter acesso a coisas elementares como material de construção sem ter que ser membro do partido, comprar no mercado negro a preços exorbitantes, ter cupons de racionamento ou esperar meses na fila.

Mas assim como há coisas que nos distinguem, existem aquelas que nos aproximam: o uso do humor pelos candidatos com menos chance como forma de propaganda, e a falta de consciência eleitoral, só para me restringir a duas. Da primeira categoria vem um dos melhores slogans que eu já vi: "Nós temos mais a oferecer" ("Wir haben mehr zu bieten"). Isoladamente, nada de novo. Mas dentro do contexto certo...

... percebe-se que a comparação pretendida foi menos quanto à plataforma eleitoral, e mais quanto à plataforma, digamos, peitoral... (para quem não acompanhou nos jornais, a foto da atual chanceler alemã, Angela Merkel -- à esquerda --, tirada em uma solenidade na Turquia há alguns meses, causou frisson mundo afora).

Quanto à falta de consciência política, basta dizer que o troféu "motivo mais fútil para votar em alguém" vai para a Birgit: na falta de motivo melhor, votou em um candidato que se parece muito com o Marian:


Uma coisa nisso tudo me deixa orgulhosa (pelo menos até se constatar alguma fraude em nossas urnas eletrônicas): por aqui ainda usam cédulas de papel!