sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Unsicht-Bar

 

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Com a proximidade do fim da minha temporada por aqui, resolvi me organizar para fazer tudo o que quero antes de ir embora. Comecei por elaborar uma lista, na qual constam os meus “objetivos”, com as respectivas localizações, preços e horários de funcionamento.

Bem no topo da lista, o Unsicht-Bar (trocadilho com o adjetivo unsichtbar, invisível), um restaurante com uma proposta no mínimo inusitada: os clientes jantam na mais absoluta escuridão, servidos por garçons deficientes visuais, e sem saber exatamente o que irão comer –- a opção fica entre os menus vegetariano, com frango, peixes e frutos do mar, carne ou  o menu surpresa, todos compostos por entrada, sopa opcional, prato principal e sobremesa.

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Como a enigmática descrição dos quatro primeiros menus não esclarece lá muita coisa,

(vide a entrada do menu de peixes e frutos do mar:

“The fish, that is travelling
through the seas
and thereby it triumphs
sweet as well as salty,
gets along with alligator pears
perfectly”

e outras pérolas no cardápio em inglês, disponível em http://www.unsicht-bar-berlin.de/unsicht-bar-berlin-v2/en/html/taste.html),

optei pelo último, em uma estratégia kamikaze (já utilizada por ocasião da minha viagem às cegas –- com o perdão por mais esse trocadilho –- do ano passado, narrada em http://graci-in-berlin.blogspot.com/2009/10/duvida-cruel.html e http://graci-in-berlin.blogspot.com/2009/10/viagem-as-cegas.html): se é para não saber o que vou comer, “lass’ dich überraschen” (deixe-se surpreender), como dizem por aqui.

Para não dizer que a surpresa foi absoluta, me permiti fazer uma única pergunta: se o menu levaria algum tipo de cogumelo (pra quem não sabe, eu abomino fungos de toda sorte). Diante da negativa, confirmei a minha escolha. Dos meus companheiros de “aventura”, três ficaram com a opção vegetariana, e o quarto, com o de carne.

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Uma vez escolhidos nossos pratos e bebidas, ainda no conforto familiar da claridade, fomos instruídos a desligar os celulares e a guardar quaisquer fontes de luminosidade, e mergulhamos no mais absoluto breu, conduzidos em fila indiana pelo nosso garçon, o simpático (e talvez sutilmente sádico) Markus.

Após caminharmos durante o que me pareceu uma pequena eternidade (ou andamos em círculo, ou o restaurante é muito maior do que aparenta ser pelo lado de fora!), chegamos à nossa mesa, e fomos sentados (assim mesmo, na voz passiva) um a um pelo Markus, que nos orientou brevemente sobre a localização dos talheres, prato e copos, traçando um paralelo com o posicionamento dos números no mostrador de um relógio (como nos filmes de aviação de guerra: inimigo –-- ou faca -- às três horas).

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Em seguida, o Markus trouxe as bebidas –- rindo levemente ao colocar a garrafa de 1l de água mineral na mesa, sem servir os copos. Quem já tentou encher um copo d’água ao acordar com sede no meio da noite talvez consiga imaginar a nossa dificuldade em manter a toalha de mesa e as nossas roupas secas, já que, por uma questão de higiene, controlar o nível da água no copo usando o dedo estava fora de cogitação...

A escuridão acabou sendo o tema predominante da nossa conversa. Por mais que arregalássemos os olhos, não enxergávamos rigorosamente nada. O mundo parecia ter se tornado unidimensional: uma interminável e impalpável parede preta. Aos poucos, porém, nossos outros sentidos foram se aguçando, e passamos a escutar melhor as conversas ao nosso redor, a adivinhar quantas pessoas estavam sentadas nas mesas ao lado, a identificar o que estávamos comendo... e a ouvir o risinho abafado do Markus sempre que um de nós falava algo engraçado sobre a situação (“tira a mão daí!”) ou esbarrava desajeitadamente em um copo.

Não vou estragar a surpresa contando o que comemos e bebemos. Basta dizer que todos saímos de lá satisfeitíssimos. Acho até que, de todos, o meu foi o menu mais saboroso –- talvez uma recompensa do chef aos destemidos que se lançam com ainda mais bravura rumo ao desconhecido...

(Crédito: as fotos deste post foram tiradas do site do Unsicht-bar, e alteradas conforme necessário.)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Varsóvia

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Mesmo já tendo rodado por boa parte da Europa, e morar por quase três anos (não-consecutivos) na Alemanha, eu nunca tinha ido à Polônia, a despeito da proximidade de Berlim com o país vizinho e dos muitos elogios a Danzig e Cracóvia que ouvi de amigos que lá estiveram.

Varsóvia, porém, nunca mereceu os mesmos elogios. Pelo contrário: até mesmo meus dois colegas poloneses, nascidos e criados na cidade, manifestaram seu estranhamento com a escolha do meu próximo destino, perguntando o que diabos eu iria fazer por lá. Explico: tendo sido arrasada por bombardeios durante a Segunda Guerra, Varsóvia foi totalmente reconstruída – não reproduzindo sua arquitetura original, como foi feito em várias cidades alemãs, mas sim quase que inteiramente seguindo a "estética comunista".

Mas como agora voltei à dura vida de trabalhar de segunda a sexta, e só me restam os fins de semana para viajar, e como as conexões aéreas e férreas para Danzig e Cracóvia não são as melhores para quem tem que respeitar o expediente integral em um escritório de advocacia, Varsóvia acabou sendo o único destino viável para minha primeira visita à Polônia. E assim lá fui eu, às quatro da manhã do último sábado de julho, encarar as mais de seis horas de trem entre as capitais alemã e polonesa.

Minha impressão inicial quase me fez antecipar a passagem de volta. Por mais que eu tenha sido alertada sobre a feiúra da estação central de Varsóvia, a realidade conseguiu superar as minhas piores expectativas. Ao desembarcar na plataforma subterrânea daquela construção escura e decadente, eu só conseguia pensar que deveria ter ouvido os meus amigos e colegas… mas ainda bem que não o fiz!

Bastou deixar para trás a estação, e perder de vista o vizinho Palácio da Cultura, um horrendo espigão tipicamente soviético, para perceber que embora não seja uma cidade deslumbrante, Varsóvia também tem seus encantos.

E não são poucos: a rua Nowy Swiat e seus muitos restaurantes e cafés,

a cidade antiga,

a Universidade,

o monumento a Chopin no Parque Lazienkowski (com direito a um concerto para piano gratuito ao ar livre),

os diversos monumentos aos judeus aprisionados no infame gueto e à resistência polonesa anti-nazista …

aliás, por coincidência, naquele fim de semana celebrou-se o aniversário desse movimento, e havia veteranos uniformizados, bandeiras e crianças distribuindo flores por toda parte.

Mas a mais emocionante e (para mim) inesperada homenagem aconteceu às 16h de domingo, 1º de agosto: uma sirene ecoou pela cidade, e todas as pessoas se ergueram e ficaram respeitosamente imóveis, no mais absoluto silêncio, por cerca de um minuto.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pai

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Talvez a minha primeira palavra tenha sido um mal-balbuciado “mã-mãe”, não me lembro; mas as minhas primeiras lembranças são de estar no seu colo, ouvindo você cantarolar baixinho para mim:

“Bonequita linda / dos cabelos loiros / olhos de brilhante / lábios de rubi… / Eu te quero muito / muito, muito, muito / tanto, tanto, agora / sempre até morrer…”

Minhas recordações de infância são povoadas com a sua presença: você nos ensinando a fazer andorinhas de papel, que em seguida voavam mezanino abaixo, por sobre a sala de estar da nossa casa no H19A; você construíndo barquinhos que tinham por “casco” aquelas antigas caixas de ovos feitas de isopor, que levávamos juntos para soltar no espelho d’água em frente ao IAE; você fazendo cartazes para decorar as nossas festinhas de aniversário; você indo viajar –- e como você viajava! –- e voltando de viagem com chicletes, batatas chips e bichos de pelúcia…

Lembro do dia em que você preparou pela primeira vez a sua (única!) “especialidade gastronômica”, vaca preta, observado de perto pelos nossos olhinhos encantados com a espuma que se formava com o encontro entre a coca-cola e o sorvete de creme… Foram tantos passeios de bicicleta, de patins, tantas brincadeiras em parquinhos!

Veio a escola, e com ela as aulas de matemática, química, física, geografia… e a descoberta de que além de um grande companheiro de brincadeiras, você era um providencial e paciente oráculo tira-duvidas 24 horas à disposição. Nas suas mãos, luminárias de mesa eram o sol, lançando a luz do dia e a sombra da noite em planetas feitos de laranja e maçãs. Rotação, translação, eclipse solar, eclipse lunar, equinócio, solstício, tudo ali, ao alcance dos olhos e da compreensão…

Lembro da primeira vez que dançamos juntos, no casamento da Patrícia e do Amin, ao som de New York, New York… Lembro do meu orgulho de ter um pai tão alto, tão forte, tão bonito!

À medida que o tempo passava, comecei a identificar nos seus gestos contidos o orgulho pelas minhas conquistas (que sensação incrível saber que você também podia ter orgulho de mim, e não só o contrário!), o misto de preocupação e admiração com os meus planos mirabólicos (quem diabos faz intercâmbio na Alemanha?!), o respeito pelas minhas opiniões (quando fui promovida a revisora de discursos, por exemplo), o reconhecimento dos meus talentos (você provavelmente é meu mais antigo e fiel cliente, apesar de nem sempre receber de mim o tratamento que merece)… Sinais de um paradoxo: a distância entre nós diminuiu, apesar de os anos de vida que nos separam terem permanecido inalterados. 

Também houve brigas, após as quais  meu coração ficava apertado de angústia por ter te chateado. Mesmo assim eu achava um exagero quando você dizia que eu era jovem e esqueceria rapidamente aquela discussão, enquanto você ficaria aborrecido por dias. Hoje eu sei que era verdade, Pai… e se eu pudesse, eliminaria com requintes de crueldade, um a um, todos os que ousam te aborrecer!

Crescer tem seu lado difícil, Pai, e descobrir que o o herói indestrutível tem seu lado humano pode ser um deles. Mas acredite: eu não troco meu melhor amigo de hoje por aquele meu herói de uniforme (da Aeronáutica) de ontem por nada neste mundo.

Feliz Dia dos Pais! Eu te amo muito!

aaGracipai P.S.: Xande, só tenho uma coisa a desejar a você, como pai em incubação: que você saiba se tornar tão especial para o(a) Feijãozinho(a), que ele(a) um dia sinta a necessidade de dizer ou escrever algo assim em sua homenagem.