Com a proximidade do fim da minha temporada por aqui, resolvi me organizar para fazer tudo o que quero antes de ir embora. Comecei por elaborar uma lista, na qual constam os meus “objetivos”, com as respectivas localizações, preços e horários de funcionamento.
Bem no topo da lista, o Unsicht-Bar (trocadilho com o adjetivo unsichtbar, invisível), um restaurante com uma proposta no mínimo inusitada: os clientes jantam na mais absoluta escuridão, servidos por garçons deficientes visuais, e sem saber exatamente o que irão comer –- a opção fica entre os menus vegetariano, com frango, peixes e frutos do mar, carne ou o menu surpresa, todos compostos por entrada, sopa opcional, prato principal e sobremesa.
Como a enigmática descrição dos quatro primeiros menus não esclarece lá muita coisa,
(vide a entrada do menu de peixes e frutos do mar:
“The fish, that is travelling
through the seas
and thereby it triumphs
sweet as well as salty,
gets along with alligator pears
perfectly”e outras pérolas no cardápio em inglês, disponível em http://www.unsicht-bar-berlin.de/unsicht-bar-berlin-v2/en/html/taste.html),
optei pelo último, em uma estratégia kamikaze (já utilizada por ocasião da minha viagem às cegas –- com o perdão por mais esse trocadilho –- do ano passado, narrada em http://graci-in-berlin.blogspot.com/2009/10/duvida-cruel.html e http://graci-in-berlin.blogspot.com/2009/10/viagem-as-cegas.html): se é para não saber o que vou comer, “lass’ dich überraschen” (deixe-se surpreender), como dizem por aqui.
Para não dizer que a surpresa foi absoluta, me permiti fazer uma única pergunta: se o menu levaria algum tipo de cogumelo (pra quem não sabe, eu abomino fungos de toda sorte). Diante da negativa, confirmei a minha escolha. Dos meus companheiros de “aventura”, três ficaram com a opção vegetariana, e o quarto, com o de carne.
Uma vez escolhidos nossos pratos e bebidas, ainda no conforto familiar da claridade, fomos instruídos a desligar os celulares e a guardar quaisquer fontes de luminosidade, e mergulhamos no mais absoluto breu, conduzidos em fila indiana pelo nosso garçon, o simpático (e talvez sutilmente sádico) Markus.
Após caminharmos durante o que me pareceu uma pequena eternidade (ou andamos em círculo, ou o restaurante é muito maior do que aparenta ser pelo lado de fora!), chegamos à nossa mesa, e fomos sentados (assim mesmo, na voz passiva) um a um pelo Markus, que nos orientou brevemente sobre a localização dos talheres, prato e copos, traçando um paralelo com o posicionamento dos números no mostrador de um relógio (como nos filmes de aviação de guerra: inimigo –-- ou faca -- às três horas).
Em seguida, o Markus trouxe as bebidas –- rindo levemente ao colocar a garrafa de 1l de água mineral na mesa, sem servir os copos. Quem já tentou encher um copo d’água ao acordar com sede no meio da noite talvez consiga imaginar a nossa dificuldade em manter a toalha de mesa e as nossas roupas secas, já que, por uma questão de higiene, controlar o nível da água no copo usando o dedo estava fora de cogitação...
A escuridão acabou sendo o tema predominante da nossa conversa. Por mais que arregalássemos os olhos, não enxergávamos rigorosamente nada. O mundo parecia ter se tornado unidimensional: uma interminável e impalpável parede preta. Aos poucos, porém, nossos outros sentidos foram se aguçando, e passamos a escutar melhor as conversas ao nosso redor, a adivinhar quantas pessoas estavam sentadas nas mesas ao lado, a identificar o que estávamos comendo... e a ouvir o risinho abafado do Markus sempre que um de nós falava algo engraçado sobre a situação (“tira a mão daí!”) ou esbarrava desajeitadamente em um copo.
Não vou estragar a surpresa contando o que comemos e bebemos. Basta dizer que todos saímos de lá satisfeitíssimos. Acho até que, de todos, o meu foi o menu mais saboroso –- talvez uma recompensa do chef aos destemidos que se lançam com ainda mais bravura rumo ao desconhecido...
(Crédito: as fotos deste post foram tiradas do site do Unsicht-bar, e alteradas conforme necessário.)




