Talvez a minha primeira palavra tenha sido um mal-balbuciado “mã-mãe”, não me lembro; mas as minhas primeiras lembranças são de estar no seu colo, ouvindo você cantarolar baixinho para mim:
“Bonequita linda / dos cabelos loiros / olhos de brilhante / lábios de rubi… / Eu te quero muito / muito, muito, muito / tanto, tanto, agora / sempre até morrer…”
Minhas recordações de infância são povoadas com a sua presença: você nos ensinando a fazer andorinhas de papel, que em seguida voavam mezanino abaixo, por sobre a sala de estar da nossa casa no H19A; você construíndo barquinhos que tinham por “casco” aquelas antigas caixas de ovos feitas de isopor, que levávamos juntos para soltar no espelho d’água em frente ao IAE; você fazendo cartazes para decorar as nossas festinhas de aniversário; você indo viajar –- e como você viajava! –- e voltando de viagem com chicletes, batatas chips e bichos de pelúcia…
Lembro do dia em que você preparou pela primeira vez a sua (única!) “especialidade gastronômica”, vaca preta, observado de perto pelos nossos olhinhos encantados com a espuma que se formava com o encontro entre a coca-cola e o sorvete de creme… Foram tantos passeios de bicicleta, de patins, tantas brincadeiras em parquinhos!
Veio a escola, e com ela as aulas de matemática, química, física, geografia… e a descoberta de que além de um grande companheiro de brincadeiras, você era um providencial e paciente oráculo tira-duvidas 24 horas à disposição. Nas suas mãos, luminárias de mesa eram o sol, lançando a luz do dia e a sombra da noite em planetas feitos de laranja e maçãs. Rotação, translação, eclipse solar, eclipse lunar, equinócio, solstício, tudo ali, ao alcance dos olhos e da compreensão…
Lembro da primeira vez que dançamos juntos, no casamento da Patrícia e do Amin, ao som de New York, New York… Lembro do meu orgulho de ter um pai tão alto, tão forte, tão bonito!
À medida que o tempo passava, comecei a identificar nos seus gestos contidos o orgulho pelas minhas conquistas (que sensação incrível saber que você também podia ter orgulho de mim, e não só o contrário!), o misto de preocupação e admiração com os meus planos mirabólicos (quem diabos faz intercâmbio na Alemanha?!), o respeito pelas minhas opiniões (quando fui promovida a revisora de discursos, por exemplo), o reconhecimento dos meus talentos (você provavelmente é meu mais antigo e fiel cliente, apesar de nem sempre receber de mim o tratamento que merece)… Sinais de um paradoxo: a distância entre nós diminuiu, apesar de os anos de vida que nos separam terem permanecido inalterados.
Também houve brigas, após as quais meu coração ficava apertado de angústia por ter te chateado. Mesmo assim eu achava um exagero quando você dizia que eu era jovem e esqueceria rapidamente aquela discussão, enquanto você ficaria aborrecido por dias. Hoje eu sei que era verdade, Pai… e se eu pudesse, eliminaria com requintes de crueldade, um a um, todos os que ousam te aborrecer!
Crescer tem seu lado difícil, Pai, e descobrir que o o herói indestrutível tem seu lado humano pode ser um deles. Mas acredite: eu não troco meu melhor amigo de hoje por aquele meu herói de uniforme (da Aeronáutica) de ontem por nada neste mundo.
Feliz Dia dos Pais! Eu te amo muito!
P.S.: Xande, só tenho uma coisa a desejar a você, como pai em incubação: que você saiba se tornar tão especial para o(a) Feijãozinho(a), que ele(a) um dia sinta a necessidade de dizer ou escrever algo assim em sua homenagem.

4 comentários:
Que lindo!
Tô com os olhos cheios d'água... Pronto, falei
Tô com os olhos cheios d'água... Pronto, falei
Quando eu crescer, quero ser assim...
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